<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" ><generator uri="https://jekyllrb.com/" version="3.10.0">Jekyll</generator><link href="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/feed.xml" rel="self" type="application/atom+xml" /><link href="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/" rel="alternate" type="text/html" /><updated>2026-06-05T16:48:21+00:00</updated><id>https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/feed.xml</id><title type="html">Gravidade Zero</title><subtitle>Gravidade zero é a ausência total ou quase total da sensação de peso. (in wikipedia) É também o motivo porque escrevo.</subtitle><author><name>Carol the Astronaut</name></author><entry><title type="html">Lá estão elas</title><link href="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/la-estao-elas/" rel="alternate" type="text/html" title="Lá estão elas" /><published>2026-05-14T10:30:00+00:00</published><updated>2026-05-14T10:30:00+00:00</updated><id>https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/la-estao-elas</id><content type="html" xml:base="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/la-estao-elas/"><![CDATA[<p>Uma das coisas boas de envelhecer, é que se amontoam histórias cá dentro à espera de serem contadas. Esta é uma delas.</p>

<p><img src="../assets/images/la-estao-elas.jpg" alt="Ilustração de Carol the Astronaut" />
<em>Ilustração de Carol the Astronaut</em></p>

<p><em>Lá estão elas</em>. Disseste, não sei se rabugento por estarem naquele lugar, se curioso pela surpresa da visita. <em>Onde?</em> Perguntei curiosa. <em>Ali! Não as vês?!</em> Reforçaste levantando com dificuldade o braço para apontares o ninho. Foquei-me na ombreira da porta do quarto da frente e com um sorriso fingi que <em>Sim! Vejo! São duas andorinhas.</em> Sorriste e pousaste a cabeça na almofada devagar. Neste dia percebi que existem momentos na vida nos quais uma mentira insignificante pode saber a sorte grande.</p>

<p>Não consigo gostar do cheiro a flores mortas. Entristece-me. Talvez por isso aguardasse ansiosa o nascer do dia, sentada naquele sofá de pele, castanho escuro, frio e desconfortável. Acho que foi feito para não adormecermos e conseguirmos espiar a noite de olhos mal abertos. Como um carneiro mal morto. Como uma penitência por estarmos vivos. A luz é trémula, típica de café central de qualquer vila portuguesa nos anos 80, mas ali não se servem bicas nem torradas em pão de forma alto e fofo. Cheira a mofo e flores mortas. Porque há mofo nas paredes pouco brancas e flores a definhar no chão sem terra que as sustente. Pela janela grande e velha vejo que a luz fraca do amanhecer começa a mostrar a silhueta dos plátanos lá fora, e um chilrear distante que rasga o silêncio da madrugada lembra-me que há vida lá fora prestes a acordar. Levanto-me aliviada pelo fim daquele tormento e puxo a porta pesada de madeira deixando-a aberta atrás de mim. De olhos fechados e nariz a apontar para o céu, inspiro o ar fresco primaveril como purga da “moribundice” que me rodeia. Abro os olhos e lá estão elas. Alegres, voando em oitos acrobáticos, ora rente aos telhados, ora rasando as folhas das árvores. Uma dança sem fim que celebra uma estação, a meu ver, da forma mais bela.</p>

<p>Às vezes acho que estar vivo não tem nada de surpreendente. Vejo <em>spoilers</em> em todo o lado que me lembram como acaba. <em>Ninguém fica cá para sopas.</em> Dizem. Sinto que toda a beleza que inventamos serve apenas o propósito de nos distrair da nossa frágil realidade. Serve para embandeirar o arco e fingirmos que não morremos todos no fim. Naquela manhã, à porta da igreja de São Pedro, pensei nisto e se não seria a primavera também ela uma tentativa de pintar os dias cinzentos de inverno. E lá estavam elas, a despedirem-se de ti.</p>

<p>Hoje voltei a ouvir o chilrear distante para lá da janela da minha casa. Um despertador da natureza que me lembra que os dias quentes vêm aí. Finalmente. Olho lá para fora e vejo os voos rasantes a entrarem pela minha varanda adentro para saírem logo a seguir em direção ao mar. Vejo-as brincar com as correntes de ar, desafiando a gravidade e a sorte de não embaterem contra o betão do lugar onde vivo. <em>Exibicionistas.</em> Penso. Sinto uma pontinha de inveja por não ser dotada de tal mestria, mas feliz por as rever. Vesti o casaco e plantei-me no jardim em frente da minha casa. Eram quatro. Irrequietas, sempre a chilrear umas para as outras fazendo da aventura de encontrar um novo lar a mais divertida das brincadeiras.</p>

<p><em>Lá estão elas… Um dia vão fazer ninho na tua varanda.</em> Sussurras-me na memória. Ao que te respondo em pensamento: <em>Assim espero avô… assim espero…</em></p>]]></content><author><name>Carol the Astronaut</name></author><category term="cronicas" /><summary type="html"><![CDATA[Uma das coisas boas de envelhecer, é que se amontoam histórias cá dentro à espera de serem contadas. Esta é uma delas.]]></summary><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/assets/images/la-estao-elas.jpg" /><media:content medium="image" url="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/assets/images/la-estao-elas.jpg" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" /></entry><entry><title type="html">Porque escrevo</title><link href="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/porque-escrevo/" rel="alternate" type="text/html" title="Porque escrevo" /><published>2026-04-14T10:30:00+00:00</published><updated>2026-04-14T10:30:00+00:00</updated><id>https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/porque-escrevo</id><content type="html" xml:base="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/porque-escrevo/"><![CDATA[<p>Escrever é um remédio. Não sei se o melhor, mas é certamente uma mezinha caseira que aplico na mente em diferentes fases da vida.</p>

<p><img src="../assets/images/porque-escrevo.jpg" alt="Ilustração de Carol the Astronaut" />
<em>Ilustração de Carol the Astronaut</em></p>

<p>Acho que comecei a escrever no início da adolescência sob influência da minha avó materna, uma poetisa autodidata de uma das terras onde cresci.</p>

<p>Gostava sobretudo de escrever coisas que soassem bonitas, curtas e em verso que mostrava orgulhosamente aos adultos que me educaram quando a vergonha do que punha no papel não tomava conta da minha pele. Sobretudo à tal avó. Sabia-a com sensibilidade para o que lhe levava a ler. Falava sobre o mar, às vezes dos amigos, do vento mensageiro, mas sobretudo das injustiças mundiais do tempo então presente.</p>

<p>Com o passar dos anos a escrita foi-se tornando privada. Pessoal. Diria mesmo: secreta. Transformou-se num refúgio ao qual me dirigia quando as dores de crescimento bateram à porta. Era sobretudo uma ferramenta que me ajudava a pensar, a refletir sobre dores como a perda (de mim e dos outros), identidade, solidão e muitas vezes <del>amores</del> desamores. Ajudou-me a reconstruir por dentro, a colar peças partidas pelo caminho e a equilibrar-me. A palavra ganhou corpo, era matéria viva, expulsa das minhas entranhas através da escrita. Fez-me mais leve quando as vivências me tornaram pesada e menos só quando, novamente mais tarde, resolvi alojar os pensamentos num blogue. <em>Post it out</em>, o seu nome.</p>

<p>Um dia apaixonei-me e para grande surpresa (e sorte) a minha, fui correspondida. Comecei a viver as ilusões e fantasias de um grande amor. A vida ganhou cor, encantos desconhecidos, emoções por explorar e com o passar do tempo, deixei de escrever. Foi como andar de bicicleta sem rodinhas pela primeira vez e usufruir da viagem sem medo de cair. Fui viver.</p>

<p>Decorridos quinze anos, a Covid explodiu. Perdi a avó. Explodiram outras coisas dentro e fora de mim também. Mas foi quando as portas se fecharam para o mundo e toda a gente se via às janelas de casa e do “Zoom” que a escrita reapareceu. Precisava de olhar para dentro novamente. Quando senti esse ímpeto para escrever não o quis fazer igual. Queria que a escrita fosse feliz e não meramente um veículo para expulsar emoções que me tornassem completamente vulnerável à leitura do outro. Exposta. Decidi: vou escrever ficção. Comecei. Não acabei. Foi uma viagem turbulenta. Também. Conheci personagens que gostava de ter na minha vida e não apenas na imaginação. Que chatice. Escrevi pequenos textos, alguns ligados entre si, outros solteiros. <em>Não sei fazer isto.</em> Pensei. Algum tempo depois a escrita voltou a desaparecer quando as portas de casa se voltaram a abrir. Distraí-me com o mundo novamente. E agora voltei. Quero que seja diferente (outra vez). Talvez crónica. Talvez conto. Talvez, de quando em vez, ficção inspirada em vivências. Tudo muito bonito, mas a pergunta que não me sai da cabeça é: se sinto vontade de escrever, o que me dói…?</p>]]></content><author><name>Carol the Astronaut</name></author><category term="cronicas" /><summary type="html"><![CDATA[Escrever é um remédio. Não sei se o melhor, mas é certamente uma mezinha caseira que aplico na mente em diferentes fases da vida.]]></summary><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/assets/images/porque-escrevo.jpg" /><media:content medium="image" url="https://gravidadezero.caroltheastronaut.com/assets/images/porque-escrevo.jpg" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" /></entry></feed>