Uma das coisas boas de envelhecer, é que se amontoam histórias cá dentro à espera de serem contadas. Esta é uma delas.

Ilustração de Carol the Astronaut Ilustração de Carol the Astronaut

Lá estão elas. Disseste, não sei se rabugento por estarem naquele lugar, se curioso pela surpresa da visita. Onde? Perguntei curiosa. Ali! Não as vês?! Reforçaste levantando com dificuldade o braço para apontares o ninho. Foquei-me na ombreira da porta do quarto da frente e com um sorriso fingi que Sim! Vejo! São duas andorinhas. Sorriste e pousaste a cabeça na almofada devagar. Neste dia percebi que existem momentos na vida nos quais uma mentira insignificante pode saber a sorte grande.

Não consigo gostar do cheiro a flores mortas. Entristece-me. Talvez por isso aguardasse ansiosa o nascer do dia, sentada naquele sofá de pele, castanho escuro, frio e desconfortável. Acho que foi feito para não adormecermos e conseguirmos espiar a noite de olhos mal abertos. Como um carneiro mal morto. Como uma penitência por estarmos vivos. A luz é trémula, típica de café central de qualquer vila portuguesa nos anos 80, mas ali não se servem bicas nem torradas em pão de forma alto e fofo. Cheira a mofo e flores mortas. Porque há mofo nas paredes pouco brancas e flores a definhar no chão sem terra que as sustente. Pela janela grande e velha vejo que a luz fraca do amanhecer começa a mostrar a silhueta dos plátanos lá fora, e um chilrear distante que rasga o silêncio da madrugada lembra-me que há vida lá fora prestes a acordar. Levanto-me aliviada pelo fim daquele tormento e puxo a porta pesada de madeira deixando-a aberta atrás de mim. De olhos fechados e nariz a apontar para o céu, inspiro o ar fresco primaveril como purga da “moribundice” que me rodeia. Abro os olhos e lá estão elas. Alegres, voando em oitos acrobáticos, ora rente aos telhados, ora rasando as folhas das árvores. Uma dança sem fim que celebra uma estação, a meu ver, da forma mais bela.

Às vezes acho que estar vivo não tem nada de surpreendente. Vejo spoilers em todo o lado que me lembram como acaba. Ninguém fica cá para sopas. Dizem. Sinto que toda a beleza que inventamos serve apenas o propósito de nos distrair da nossa frágil realidade. Serve para embandeirar o arco e fingirmos que não morremos todos no fim. Naquela manhã, à porta da igreja de São Pedro, pensei nisto e se não seria a primavera também ela uma tentativa de pintar os dias cinzentos de inverno. E lá estavam elas, a despedirem-se de ti.

Hoje voltei a ouvir o chilrear distante para lá da janela da minha casa. Um despertador da natureza que me lembra que os dias quentes vêm aí. Finalmente. Olho lá para fora e vejo os voos rasantes a entrarem pela minha varanda adentro para saírem logo a seguir em direção ao mar. Vejo-as brincar com as correntes de ar, desafiando a gravidade e a sorte de não embaterem contra o betão do lugar onde vivo. Exibicionistas. Penso. Sinto uma pontinha de inveja por não ser dotada de tal mestria, mas feliz por as rever. Vesti o casaco e plantei-me no jardim em frente da minha casa. Eram quatro. Irrequietas, sempre a chilrear umas para as outras fazendo da aventura de encontrar um novo lar a mais divertida das brincadeiras.

Lá estão elas… Um dia vão fazer ninho na tua varanda. Sussurras-me na memória. Ao que te respondo em pensamento: Assim espero avô… assim espero…